Mostrando postagens com marcador tradição. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador tradição. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 21 de julho de 2009

VIII Encontro Brasileiro de Jovens Tradicionalistas


Neste final de semana de 24 à 26 de julho estará acontecendo em Florianópolis o VIII Encontro da Juventude Tradicionalista da CBTG, que tem por finalidade promover a integração do jovem com suas origens, além de difundir as raízes do tradicionalismo, promovendo o estreitamento das relações sociais existentes em todos os aspectos histórico-sociais que abragem a tradição gaúcha.

Durante o evento, serão realizadas palestras, seminários e uma olimpíada tradicionalista, além de uma grande tertúlia de comfraternização, com o intuito de estreitar os laços de amizade entre tradicionalistas de todos os cantos do país e desenvolver no jovem o sentimento de valorização de sua cultura e o seu desenvolvimento como ser humano.

Segue abaixo a programação:

Convidados de Honra

Dorvilio José Calderan – Presidente da CBTG

Itamar Sebastião Mattos – Presidente do MTG/SC

Odacir Zonta – Deputado Federal

Luiz Henrique da Silveira – Governador do Estado de Santa Catarina

Gilmar Knaesel – Secretário de Estado de Turismo, Cultura e Esporte de Santa Catarina

Dário Elias Berger – Prefeito Municipal de Florianópolis

Djalma Vando Berger – Prefeito Municipal de São José

Organização

Danúbia Kulba da Silva – 1ª Prenda da CBTG

Allan Sievert – 1º Peão Tradicionalista da CBTG

Danielle Amorim Silva – 1ª Prenda Adulta do MTG/SC

Celívio Holz – Diretor Cultural da CBTG

Adyva Stein Holz – Assessora Cultural da CBTG

Colaboração

Prendas e Peões Tradicionalistas da CBTG

Prendas e Peões dos MTG’s e Federações que compõem a CBTG

Informações

Data

24, 25 e 26 de julho de 2009

Local

Hotel Itaguaçu

Av. Ivo Silveira, n.º 3.861

Bairro Capoeiras – Florianópolis – Santa Catarina

http://www.hotelitaguacu.com.br

Contatos

– Danúbia: (48) 9121-0117 – danubiakulba@hotmail.com

– Allan : (47) 9112-0235 – allansievert@hotmail.com


Encontro Brasileiro de

Jovens Tradicionalistas

(VIII Encontro da Juventude

Tradicionalista da CBTG)



“Temos as mãos, o sentimento do mundo e a certeza

de que o jovem não é o amanhã, ele é o agora.”

24, 25 e 26 de julho de 2009

Florianópolis – Santa Catarina

Convite

É com imensa satisfação que a CBTG – Confederação Brasileira da Tradição Gaúcha, o MTG/SC – Movimento Tradicionalista Gaúcho do Estado de Santa Catarina, a 1ª Prenda e Diretora do Departamento Jovem da CBTG, Srta. Danúbia Kulba da Silva, o 1º Peão Tradicionalista e Diretor do Departamento Jovem da CBTG, Sr. Allan Sievert, e a 1ª Prenda Adulta do MTG/SC, Srta. Danielle Amorim Silva, têm a honra de convidar Vossa Senhoria para participar do Encontro Brasileiro de Jovens Tradicionalistas (VIII Encontro da Juventude Tradicionalista da CBTG), a realizar-se nos dias 24, 25 e 26 de julho de 2009, no Hotel Itaguaçu, em Florianópolis, Santa Catarina.

O evento é uma iniciativa do Departamento Jovem e do Departamento Cultural da CBTG, e tem por objetivos resgatar e preservar os valores e a real filosofia da cultura tradicionalista gaúcha; unir os jovens tradicionalistas, com o intuito de fortalecer cada vez mais a nossa tradição; descobrir potencialidades para liderança e incentivar a formação de líderes; proporcionar um intercâmbio cultural entre os MTG’s e Federações que compõem a CBTG, e tradicionalistas em geral; e orientar e trocar experiências com os jovens que integrarão os Departamentos Jovens dos seus MTG’s ou Federações.

A participação de todos os MTG’s e Federações do Brasil é de fundamental importância para o fortalecimento do valor à cultura tradicionalista gaúcha.

Danúbia Kulba da Silva

1ª Prenda e Diretora do Departamento Jovem da CBTG

Allan Sievert

1º Peão Tradicionalista e Diretor do Departamento Jovem da CBTG

Danielle Amorim Silva

1ª Prenda Adulta do MTG/SC

Celívio Holz

Diretor Cultural da CBTG

Adyva Stein Holz

Assessora Cultural da CBTG

Programação

24 de julho de 2009 (sexta)


18:00

Recepção e credenciamento.

20:00

Solenidade de abertura.

21:30

Jantar.


25 de julho de 2009 (sábado)


07:00

Café da manhã.

08:00

Saída para o passeio: “Tour pelo Centro Histórico de São José e pela Ilha de Santa Catarina”.

12:00

Almoço no Hotel Itaguaçu.

14:00

Início das atividades.

Palestra: “Motivação Interativa”, com Ainor Lotério.

15:00

Palestra: “Visão do Tradicionalismo Gaúcho no Brasil e no Mundo”, com Celívio Holz (Diretor Cultural da CBTG).

16:00

“Coffee break”.

17:00

Dinâmica em grupo, com Danúbia Kulba da Silva (1ª Prenda e Diretora do Departamento Jovem da CBTG) e Allan Sievert (1º Peão Tradicionalista e Diretor do Departamento Jovem da CBTG).

18:00

Intervalo.

19:30

Jantar.

20:30

Olimpíada tradicionalista (com tertúlia livre após a olim-píada).


26 de julho de 2009 (domingo)


08:30

Café da manhã.

09:30

Reinício das atividades.

Palestra: “Sustentabilidade Econômica do Movimento”, com Wilson Porto (Diretor Geral da CBTG).

10:30

Olimpíada tradicionalista (continuação): apresentação do grupo indicado no sábado.

11:00

Solenidade de encerramento – momento de confraterni-zação.

12:00

Almoço.


quinta-feira, 25 de junho de 2009

O Centauro do Sul


Parceiro histórico dos gaúchos, o cavalo crioulo, tem origem de animais de linhagem Lusitana trazidos para as américas por Hernán Cortés no séculoXVI, que dispersados pelos campos, cruzaram entre si, e que ganharam uma conformação mais rústica devido aos aspectos climáticos e geográficos do continente.

São animais de porte mediano, com uma conformação morfofisiologica extremamente adaptada, ao clima e topografia da região, mostram-se fortes e resistente.

Extremamente difundido na américa do sul, principalmente na bacia cisplatina e região sul do Brasil, o cavalo crioulo é muito utilizado no manejo do gado, e em provas campeiras da tradição gaúcha, entre outras tantas como enduro rural e croos country.

Teve sua imagem destacada durante a revolução Farroupilha (1835 - 1845), utilizado em grande parte devido a sua robustez e agilidade além da grande docilidade e fácil manuseio.

Hoje encontra-se difundido em praticamente toda américa. No Brasil a ABCCC (Associação Brasileira dos Criadores de Cavalo Crioulo) é quem determina os padrões da raça, registro de animais e provas de confirmação, como o já tradicional Freio de Ouro.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Conhecendo Bento Golçalves

Bento Gonçalves da Silva, um dos maiores icones da revolução farroupilha, ocorrida no Rio Grande do Sul, de 1835 à 1845.

Filho de Joaquim Gonçalves da Silva e Perpétua da Costa Meirelles, destacou-se como militar caucango primeiramente o cargo de comandante de cavalaria, posteriormente coronel de guerrilha devido a sua participação decisiva na Guerra Cisplatina.

Posteirormente a Guerra, foi nomeado Cononel de estado-maior pelo Imperador D. Pedro I, recebeu o comando militar da provincia do Rio Grande.

Durante a revolução farroupilha foi preso no Rio de Janeiro, mais tarde Transferido para Bahia, de onde conseguiu fugir com a ajuda da Maçonaria, quando então retornou ao Rio grande que já havia sido proclamado republica pelo General Neto, onde assumiu a presidência.

Bento Gonçalves faleceu em 18 de julho de 1847. Seus restos mortais encontram-se sob monumento na praça tamadaré na cidade de Rio Grande.

A revolução farroupilha teve inicio em 1835 e durou dez anos.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

A Festa do Pinhão



Temos hoje na Festa Nacional do Pinhão, uma das maiores vitrines da Cultura sul Brasileira, desde sua primeira edição, ainda em meados da década de 70, até hoje já em carater nacional guarda em suas raizes a questão cultural da serra e aspectos regionalisticos tais como: danças, poesias, música, na qual destacamos a Sapecada da Canção Nativa e a Sapecada da Serra, ponto para o surgimento de novos fenomenos da musica nativista e regionalista, já na sua 17ª edição.

No mais destacamos ainda toda a culinária, artesanato e shows que são um atrativo a parte da festa.

vale a pena conferir!
Conheça Lages

quarta-feira, 13 de maio de 2009

JOÃO CARLOS D'ÁVILA PAIXÃO CÔRTES

JOÃO CARLOS D'ÁVILA PAIXÃO CÔRTES


O renascimento do tradicionalismo gaúcho confunde-se com a figura de João Carlos D’Ávila Paixão Côrtes. Em uma época em que as tradições rio-grandenses eram ignoradas, ele foi atrás das raízes de seu povo e, junto com Barbosa Lessa, cruzou a Argentina, o Uruguai, Paraguai e Peru. Como pesquisador, sua preocupação centrou-se em promover e desenvolver a cultura popular dentro da história do Rio Grande do Sul.


Nascido em 12 de julho de 1927, na cidade de Santana do Livramento, fronteira do Brasil com o Uruguai, Paixão Côrtes tem suas heranças ligadas à agricultura e pecuária. De sua infância nas estâncias familiares veio o interesse pelo campo, o qual o levou a formar-se em Agronomia, com especialização em Ovinotecnia.
O distanciamento da vida do campo, fez Paixão notar a necessidade de fixar certos valores que havia aprendido de ancestralidade. Em 1947, com Glauco Saraiva, Barbosa Lessa, e Orlando Degrazia, grupo de estudantes secundaristas do Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre, deu origem ao Movimento Tradicionalista Gaúcho, que hoje congrega mais de 1.500 entidades. Na época, como relata , só se ouvia, nos galpões, a gaita, os versos de improviso e especialmente o Boi Barroso. Já Prenda Minha, era ouvida em um ambiente mais urbano. Neste mesmo ano, os rapazes saíram às ruas pilchados para escoltar os restos mortais do herói Farroupilha David Canabarro. Assim, surgiram as Rondas Crioulas, que mais tarde, originaram a Semana Farroupilha, em 11 de dezembro de 1964. Paixão também fundou o primeiro Centro de tradições Gaúchas, chamado de 35, em 24 de abril de 1948.
O primeiro contato de Paixão Cortes com o rádio foi em 1953, na rádio Farroupilha. Ele levou um grupo do Centro de Tradições Gaúchas 35 para uma apresentação ao vivo no programa de J. Antônio D’Ávila . Acabou sendo convidado pelo comunicador para apresentar, em estúdio, Festa no Galpão, programa que ficou no ar até 1957. Em primeiro de maio de 1955, ainda na rádio Farroupilha, Augusto Vampré diretor da emissora, convidou-o a apresentar um programa de auditório de caráter puramente regional. Paixão chamou o amigo Darci Fagundes, com quem formou uma dupla. Juntos lançaram o programa Grande Rodeio Coringa, que foi ao ar até 1957 e reformulou toda a história da fonografia riograndense, na comunicação dos temas regionais, abrindo caminho para músicos, cantores e compositores populares.
Em 1958, Paixão Côrtes foi convidado por Maurício Sirotsky e Frederico Arnaldo Balvé para apresentar "Festança na Querência", na rádio Gaúcha, programa de auditório, com uma hora de duração. Paixão dividia com Dimas Costa a animação do programa que era veiculado aos domingos. Festança na Querência foi ao ar de 1958 a 1967.
No ano de 1968, Paixão estava na Europa, levando o folclore do Rio Grande do Sul. Na ocasião encontrou Flávio Alcaraz Gomes, então diretor da rádio Guaíba. Ele convidou o tradicionalista para apresentar um programa de na emissora. Paixão passou, então, a apresentar dois programas na Guaíba; Querência, programa diário de lançamentos musicais, com dez minutos de duração e, Domingo com Paixão Côrtes, programa temático, com meia hora de duração.
De acordo com Paixão, a rádio Guaíba, com seu perfil de programação e audiência qualificados, foi importantíssima para a transformação de "grossura em cultura". Nesta época, a indústria fonográfica, já desenvolvida pela repercussão dos programas regionais no rádio, apresentava uma grande diversidade de artistas ligados à cultura do Rio Grande, o que facilitava a seleção musical dos programas de Paixão, que veio, também, a gravar, como intérprete, oito LPs (Long Plays ). Paixão Côrtes recebeu dois importantes prêmios fonográficos: Melhor Realização Folclórica Nacional (1962) e Melhor Cantor Masculino (1964).


Há 40 anos, meados da década de 50, existiam apenas cinco músicas gauchescas catalogadas. Essa pobreza de sons moveu Paixão Côrtes a promover novos grupos musicais. Em seus programas foram lançados Os Gaudérios, o conjunto vocal Farroupilha e outros. O comunicador viajava com freqüência para pesquisar e identificar novos valores, liderando um processo de desenvolvimento da cultura regional. Isto foi essencial para a ampliação da cobertura e expansão dos centros de tradições. No final de 1999 contava-se, aproximadamente,4200 Centros de Tradições Gaúchas espalhados pelo mundo.
Paixão Côrtes permaneceu na Rádio Guaíba até 1995. É convidado com reqüência para falar sobre assuntos ligados à cultura regional. O pesquisador possui um acervo de milhares de slides, centenas de fitas gravadas, filmes super 8 e vídeos sobre os costumes rio-grandenses. Todo esse material foi reconhecido e aprovado em vários Congressos Tradicionalistas. Suas investigações estenderam-se, também, a documentos e peças originais nos Museus do Louvre e Les Invalides, em Paris, no Museu do Trajo Português, em Lisboa, nos Museus Militar e do Padro, em Madrid, no Victória e Albert, em Londres e no Museu Militar da Escócia.
Por sua importância dentro da história gaúcha, a figura de Paixão Côrtes ficou eternizada em bronze na estátua do Laçador, reproduzida pelo escultor pelotense Antônio Caringi, instalada, em 1954, na rótula de entrada de Porto Alegre ( confluências das avenidas Farrapos, Ceará e dos Estados), frente ao Aeroporto Salgado Filho. Pelos seus mais de 50 anos de dedicação aos estudos sobre a cultura rio-grandense-do-sul, que lhe renderam mais de 30 obras sobre ovinocultura e folclore, recebeu a Ordem de Mérito Cultural.

O Sentido e o Valor do Tradicionalismo

O Sentido e
o Valor do Tradicionalismo
Barbosa Lessa

Aprovado pelo Primeiro Congresso Tradicionalista do
Rio Grande do Sul, Santa Maria, Julho de 1954

Comentários Cohenianos sobre o texto a seguir:

Esses dias, e pra ser mais exato foi em 28/10/2000, assisti a um debate sobre a obra de Barbosa Lessa onde falou o Ruben Oliven, prof. da Ufrgs e mais uma lista de tauras, como Luís Augusto Fischer, Mozart Pereira Soares, Tabajara Ruas além da Elisa Henkin e do próprio Barbosa.

E nesse debate, eu mais faceiro que mosca em rolha de xarope, ouvi o prof. Ruben explicar que naquela época, década de 40, final da guerra, o "chique" era ser moderno.

Ser moderno significava tomar Coca-Cola, saber tudo da vida dos artistas americanos, RENEGAR O NOSSO CAMPO, ser urbano, ser globalizado (hehehe, coisa nova, hein?!).

Vaí daí que o meu ídolo Barbosa Lessa escreveu o texto que segue, insurgindo-se contra aquele abandono do nosso passado, rural e campeiro, buscando resgatar não somente esta imagem como induzir a uma valorização do nosso, em contra-ponto com o "american way of life".

Te achega e baba... pero pouquito, senãon vão achar que estás com aftosa e...


Na vida humana, a sociedade - mais que o indivíduo - constitui a principal força na luta pela existência. Mas, para que o grupo social funcione como unidade, é necessário que os indivíduos que o compõem possuam modos de agir e de pensar coletivamente. Isto é conseguido através da "herança social" ou da "cultura". Graças à cultura comum, os membros de uma sociedade possuem a unidade psicológica que lhes permite viverem em conjunto, com um mínimo de confusão.

A cultura, assim, tem por finalidade adaptar o indivíduo não só ao seu ambiente natural, mas também ao seu lugar na sociedade. Toda a cultura inclui uma série de técnicas que ensinam ao indivíduo, desde a infância, a maneira como comportar-se na vida grupal. E graças à Tradição, essa cultura se transmite de uma geração a outra, capacitando sempre os novos indivíduos a uma pronta integração na vida em sociedade.



I - A DESINTEGRAÇÃO DE NOSSA SOCIEDADE

A cultura e a sociedade ocidental estão sofrendo um assustador processo de desintegração. Incluídas nesse panorama geral, a cultura e a sociedade de quaisquer dos povos ocidentais, necessariamente, apresentam, com maior ou menor intensidade, idêntica dissolução. É nos grandes centros urbanos que esse fenômeno se desenha mais nítido, através das estatísticas sempre crescentes de crime, divórcio, suicídio, adultério, delinqüência juvenil e outros índices de desintegração social.

Analisando tais circunstâncias, mestres da moderna Sociologia chegaram à conclusão de que problemas sociais cruciantes da atualidade são causados, ou incentivados, pelo relaxamento do controle dos costumes e noções tradicionais de cada cultura.



II - OS DOIS FATORES DE DESINTEGRAÇÃO

Sociólogos de renome afirmam que a desintegração social, característica de nossa época, é devida a dois fatores:

Primeiro: o enfraquecimento das culturas locais.

Segundo: o desaparecimento gradativo dos "Grupos Locais" comunidades transmissoras de cultura.

Analisemos, então, esses dois fatores.


A) O ENFRAQUECIMENTO DO NÚCLEO CULTURAL

A cultura de qualquer sociedade se compõe de duas partes.

Há um núcleo sólido, de certa forma estável, constituído pelo PATRIMÔNIO TRADICIONAL. Nesse núcleo se concentram aqueles inúmeros hábitos, princípios morais, valores, associações e reações emocionais partilhados por TODOS os membros de determinada sociedade (como a linguagem, a indumentária típica, os princípios fundamentais de moral, etc. ou ainda, por TODOS os membros de certas categorias de indivíduos, dentro da sociedade (como as ocupações reservadas só às mulheres ou só aos homens, as reações emocionais típicas de todos os velhos ou de todas as crianças, bem como os conhecimentos técnicos reservados aos ferreiros, aos médicos, aos agricultores, etc.). Tais elementos culturais contribuem para o bem-estar da coletividade, pois o indivíduo fica sabendo como comportar-se em grupo, e qual o comportamento que pode esperar dos outros("expectativas de comportamento"). Em suma: o cerne cultural dá, aos indivíduos, a unidade psicológica essencial ao funcionamento da sociedade.

Mas, cercando o núcleo, existe uma zona fluída e instável, constituída por elementos culturais chamados, em sociologia, Alternativas, e que são traços partilhados apenas por ALGUNS indivíduos, representando diferentes reações às mesmas situações, ou diferentes técnicas para alcançar os mesmos fins. (Certa pessoa viaja a cavalo, fazendo o mesmo percurso que outra prefere realizar em carroça; certa pessoa sente-se tremendamente ofendida se alguém faz "crítica" a um defeito físico seu, enquanto outra se comporta resignadamente face a tais críticas; etc.)

É esta zona de Alternativas que permite à cultura crescer e acomodar-se aos avanços de uma civilização. Evidentemente, quanto maior for o entrechoque com culturas diversas, maior será a possibilidade de adoção de novas Alternativas, por parte dos membros de uma sociedade.

Quando a cultura de determinado povo é invadida por novos hábitos e novas idéias, duas coisas podem ocorrer:

Se o patrimônio tradicional dessa cultura é coerente e forte, a sociedade só tem a lucrar com o referido contato, pois sabe analisar, escolher e integrar em seio aqueles traços culturais novos que, dentre muitos, realmente sejam benéficos à coletividade.

Se , porém, a cultura invadida não é predominante e forte, a confusão social é inevitável: idéias e hábitos incoerentes sufocam o núcleo cultural, desnorteando os indivíduos, e fazendo-os titubear entre as crença e valores mais antagônicos. Quem mais sofre com essa confusão social - acentua o sociólogo Donal Pierson - são as crianças e os adolescentes, os responsáveis pela sociedade do porvir.

Crescendo nessas circunstâncias, a criança não sabe como agir, não é capaz de assumir, em seu espírito, qualquer expectativa clara de comportamento. E assim se originam, entre outros, os problemas da delinqüência juvenil, resultados de uma desintegração social.

Pois bem. Devido ao surto surpreendente do maquinismo em nossos dias, bem como da facilidade de intercâmbio cultural entre os mais diversos povos, observa-se que o núcleo das culturas locais ou regionais vai se reduzindo gradativamente, a ponto de se ver sufocado pela zona das Alternativas. E a fluidez naturalmente se acentua, à medida que as sociedades mantêm novos contatos com traços culturais diferentes ou antagônicos, introduzidos por viajantes ou imigrantes, ou difundidos por livros, imprensa, cinema, etc. Nossa civilização, antes alicerçada num núcleo sólido e coerente, transformou-se numa variedades de Alternativas, entre as quais o indivíduo tem que escolher.. Sem ampla comunidade de hábitos e de idéias, porém, os indivíduos não reagem com unidade a certos estímulos, nem podem cooperar eficientemente. Daí os conflitos de ordem moral que afligem o indivíduo, fazendo atarantar-se sem saber quais as opiniões e os valores que merecem acatamento.

Essa insegurança reflete-se imediatamente na sociedade como um todo e, consequentemente no Estado, pois, conforme ensina Ralph Linton "embora os problemas de organizar e governar Estados nunca tenham sido perfeitamente resolvidos, uma coisa parece certa: se os cidadãos tiverem interesses e culturas comuns, com a vontade unificada que daí advém, quase qualquer tipo de organização formal de governo funcionará eficientemente; mas se isso não se verificar, nenhuma elaboração e padrões formais de governo, nenhuma multiplicação de lei, produzirá um Estado eficiente ou cidadãos satisfeitos".


B) O DESAPARECIMENTO DOS "GRUPOS LOCAIS"

As duas unidades mais sociais mais importantes, como transmissoras de cultura, são a "família" e o "grupo local". Através dessas duas unidades, o indivíduo recebe, com maior intensidade, a sua "herança social".

São exemplos de "grupo local", em nossa sociedade, o "vizindário" ou "pago" das populações rurais, bem como as pequenas vilas do interior, ou ainda (um exemplo do passado) os bairros com vida própria das cidades de há alguns anos atrás.

Por "grupo local" entende-se o agregado de famílias e de indivíduos avulsos que vivem juntos em certa área, compartilhando hábitos e noções comuns.

Embora não tenha organização formal (como o distrito ou o município), o "grupo local" é a unidade social autêntica. O "pago", por exemplo, influencia a vida dos seus membros, estabelece limites à vida social (quais as famílias que podem ser convidadas para as festas) , mantém elevado grau de cooperação entre os indivíduos, pois todos devem se auxiliar (antigos trabalhos de puxirão) e cada qual tem consciência desse dever de auxílio mútuo. O Indivíduo conhece perfeitamente os costumes e os princípios morais instituídos pelo seu "pago"; além disso, há um conhecimento íntimo entre os membros de um mesmo "pago" (conhecem-se até os animais objetos pertencentes aos vizinhos). Todas essas circunstâncias influem para que o "grupo local" se constitua numa potente barragem para as transgressões à ordem pública ou à moral (furto, sedução, adultério, etc.). Ademais, embora não tenha um meio de reação formal(como a polícia), o "grupo local encerra grande força punitiva, através de medidas como a perda de prestígio, o ridículo, o ostracismo. Certamente já depreendemos, então, a grande importância de que se reveste o "grupo local" para assegurar a normalidade da vida comum, segundo os padrões culturais instituídos pelo grupo.

Acresce notar o seguinte: o integrar-se a um "grupo local" constitui verdadeira NECESSIDADE PSICOLÓGICA para o indivíduo normal. Este precisa de uma unidade social coesa, maior que a família, dentro da qual sinta que outros indivíduos são seus amigos, que compartilham suas idéias e hábitos. Tanto é verdade que o indivíduo se sente inseguro quando se vê só entre estranhos.

Pois bem. O enfraquecimento da vida grupal - conforme acentuou Ralph Linton - é outra característica de nossa época. As unidades sociais pequenas estão gradativamente desaparecendo, e cedendo lugar às massas de indivíduos. Nas zonas rurais, os "grupos locais" ainda conservam um pouco de sua função como portadores de cultura; mas, em geral - devido ao afluxo de Alternativas - os jovens discordam dos padrões culturais antigos; acontece, porém, que a sociedade mais ampla - com a qual o jovem entra em contato por meio da imprensa, do rádio e cinema - ainda não têm padrões coerentes de vida para oferecer-lhes. Daí a insegurança que começa a notar-se em nossa sociedade rural.

Se nas zonas rurais se percebe apenas uma insegurança incipiente, apenas o relaxamento das forças do "grupo local" , o que se percebe nas cidades é a desintegração total dessas forças. A mudança de padrões culturais, em nossos dias, tem sido tão rápida que, em geral, o adulto de hoje teve sua infância condicionada à vida segundo as bases do "grupo local". Ensinaram-lhe a esperar dos seus vizinhos encorajamento e apoio moral; e quando esses vizinhos se afastam, o indivíduo se sente perdido. Ele escolhe entre muitas Alternativas, mas não dispõe de meios para estabelecer contato com outros que tenham feito, escolha semelhante.

Sem o apoio de um grupo que pense do mesmo modo, é - lhe impossível sentir-se seguro a respeito de qualquer assunto. E assim o indivíduo torna-se presa fácil de qualquer propaganda insistente, (quer seja a má propaganda, quer seja a boa propaganda).

Por isso, Ralph Linton escreveu "A cidade moderna, com sua multiplicidade de organizações de toda a espécie, dá a imagem de uma massa de indivíduos que perderam seus "grupos locais" e estão tentando, de maneira tateante, substituí-los por alguma outra coisa. De todos os lados surgem novos tipos de agrupamentos, mas até agora nada foi encontrado, que pareça capaz de assumir as principais funções do "grupo local". Ser membro do Rotary Club, por exemplo, não substitui adequadamente a posse de vizinhos e amigos tal como se verifica nos grupos locais".



O MOVIMENTO TRADICIONALISTA RIO-GRANDENSE

O movimento tradicionalista rio-grandense - que vem se desenvolvendo desde 1947, com características especialíssimas - visa precisamente combater os dois reconhecidos fatores de desintegração social. O fundamento científico deste movimento encontra-se na seguinte afirmação sociológica: "Qualquer sociedade poderá evitar a dissolução enquanto for capaz de manter a integridade de seu núcleo cultural. Desajustamentos, nesse núcleo, produzem conflitos entre indivíduos que compõem a sociedade, pois esses vêm a preferir valores diferentes, resultando, então, a perda da unidade psicológica essencial ao funcionamento eficiente de qualquer sociedade".

Através da atividade artística, literária, recreativa ou esportiva, que o caracteriza - sempre realçando os motivos tradicionais do Rio Grande do Sul - o Tradicionalismo procura, mais que tudo, reforçar o núcleo da cultura rio-grandense, tendo em vista o indivíduo que tateia sem rumo e sem apoio dentro do caos de nossa época.

E, através dos Centros de Tradições, o Tradicionalismo procura entregar ao indivíduo uma agremiação com as mesmas características do "grupo local" que ele perdeu ou teme perder: o " pago". Mais que o seu "pago", o pago das gerações que o precederam.

Cada Centro de Tradições Gaúchas, em si, é um novo "Grupo Local". E à medida que surgem novos Centros, em todos os municípios do Rio Grande do Sul, vai o Tradicionalismo confundindo-se com o Regionalismo, pois opera para que todos os indivíduos que compõem a Região sintam os mesmos interesses, os mesmos afetos, e desta forma reintegrem a unidade psicológica da sociedade regional. E com isso o Tradicionalismo pode se transformar na maior força política do Rio Grande do Sul. Para evitar confusão de "política" com "política partidária", expressemo-nos assim: O Tradicionalismo pode constituir-se na maior força a auxiliar o Estado na resolução dos problemas cruciais da coletividade.

Para compreendermos tal afirmativa, basta repetir a transcrição já feita: "Se os cidadãos tiverem interesses e culturas comuns, com vontade unificada que daí advém, quase qualquer tipo de organização formal de governo funcionará eficientemente. Mas, se isso não se verificar, nenhuma elaboração de padrões formais de governo, nenhuma multiplicação de lei, produzirá um Estado eficiente ou cidadãos satisfeitos.



O SENTIDO DO TRADICIONALISMO

O Tradicionalismo consiste numa EXPERIÊNCIA do povo rio-grandense, no sentido de auxiliar as forças que pugnam pelo melhor funcionamento da engrenagem da sociedade. Como toda experiência social, não proporciona efeitos imediatamente perceptíveis. O transcurso do tempo é que virá dizer do acerto ou não desta campanha cultural. De qualquer forma, as gerações do futuro é que poderão indicar, com intensidade, os efeitos desta nossa - por enquanto - pálida experiência. E ao dizermos isso, estamos acentuando o erro daqueles que acreditam ser o Tradicionalismo uma tentativa estéril de "retorno ao passado". A realidade é justamente o oposto: o Tradicionalismo constrói para o futuro.

Feitas estas considerações preliminares, podemos tentar um conceito do movimento tradicionalista. E então diremos:

"Tradicionalismo é o movimento popular que visa auxiliar o Estado na consecução do bem coletivo, através de ações que o povo pratica (mesmo que não se aperceba de tal finalidade) com o fim de reforçar o núcleo de sua cultura: graças ao que a sociedade adquire maior tranqüilidade na vida comum".



CARACTERÍSTICAS DO TRADICIONALISMO

Mais do que uma teoria, o Tradicionalismo é um movimento. Age dentro da psicologia coletiva. Sua dinâmica realiza-se por intermédio dos Centros de Tradições Gaúchas, agremiações de cunho popular que têm por fim estudar, divulgar e fazer com que o povo "viva" as tradições rio-grandenses.

O Tradicionalismo deve ser um movimento nitidamente POPULAR, não simplesmente intelectual. É verdade que o tradicionalismo continuará sendo compreendido, em sua finalidade última, apenas por uma minoria intelectual. Mas, para vencer, é fundamental que seja sentido e desenvolvido no seio das camadas populares, isto é, nas canchas de carreiras, nos auditórios de radioemissoras, nos festivais e bailes populares, na "Festas do Divino" e de "Navegantes", etc.

Para alcançar seus fins, o Tradicionalismo serve-se do Folclore, da Sociologia, da Arte, da Literatura, do Esporte, da Recreação, etc. Tradicionalismo não se confunde, pois, com Folclore, Literatura, Teatro, etc. Tudo isso constitui MEIOS para que o Tradicionalismo alcance seus fins. Não se deve confundir o Tradicionalismo, que é um movimento,, com o Folclore, a História, a Sociologia, etc., que são ciências. Não se deve confundir o folclorista, por exemplo, com o tradicionalista: aquele é o estudioso de uma ciência, este é o soldado de um movimento. Os Tradicionalistas não precisam tratar cientificamente o folclore; estarão agindo eficientemente se servirem dos estudos dos folcloristas, como base de ação, e assim reafirmarem as vivências folclóricas no próprio seio do povo.



AS DUAS GRANDES QUESTÕES DO TRADICIONALISMO

Existem duas questões importantíssimas, que de maneira nenhuma podem ser descuidadas pelos tradicionalistas, sob pena deste esforço cultural se desenhar, de antemão, como uma experiência fracassada.


A) ATENÇÃO ESPECIAL ÀS NOVAS GERAÇÕES

Deve, o Tradicionalismo, operar com intensidade no setor infantil ou educacional, para que o movimento tradicionalista não desapareça com a nossa geração. Porque nós - os tradicionalistas de primeira arrancada - entramos para os Centros de Tradições Gaúchas movidos pela necessidade psicológica de encontrar o "grupo local" que havíamos perdido ou que temíamos perder. Mas as gerações novas não chegaram a conhecer o grupo local como unidade social autêntica, e somente seguirão nossos passos por força de impulsos que a educação lhes ministrar.

Por isso não temo afirmar que o dia mais glorioso para o movimento tradicionalista será aquele em que a classe de Professores Primários do Rio Grande do Sul - consciente do sentido profundo desse gesto, e não por simples atitude de simpatia - oferecer seu decisivo apoio a esta campanha cultural.

Aliás, não se concebe que as Escolas Primárias continuem por mais tempo apartadas do movimento tradicionalista. Pois a maneira mais segura de garantir à criança o seu ajustamento à sociedade é precisamente fazer com que ela receba, de modo intensivo, aquela massa de hábitos, valores, associações e reações emocionais - o patrimônio tradicional, em suma - imprescindíveis para que o indivíduo se integre eficientemente na cultura comum.


B) ASSISTÊNCIA AO HOMEM DO CAMPO

A idéia nuclear das Tradições Gaúchas é a figura do campeiro das nossas estâncias. Por isso, é sumamente necessário que o Tradicionalismo ampare social e moralmente o homem do campo, para que um dia não se chegue à situação paradoxal de manter-se uma Tradição de fantasia, em que se tecessem hinos de louvor ao "Monarca das Coxilhas", ao "Centauro dos Pampas", e esse gaúcho fosse um desajustado social, um pária lutando febrilmente pela própria subsistência. A nossa cultura somente poderá se impor sobre as outras culturas, no entrechoque inevitável, se for suficientemente prestigiosa. Daí a razão por que precisamos mostrar às novas gerações - bem como àqueles que, vindos de terras distantes, acorrerem à nossa querência - que as tradições gaúchas são REALMENTE belas, e que o gaúcho merece realmente a nossa admiração.



O TRADICIONALISMO COMO FORÇA ECONÔMICA

Prestigiando as tradições gaúchas e prestando assistência moral e social ao homem do campo, o Tradicionalismo estará contribuindo de maneira inestimável para a solução do problema que ora sufoca a nossa vida econômica: o êxodo rural, a crise agrícola. É que, dentre as principais causas do êxodo rural, encontramos uma que foge ao âmbito dos fenômenos econômicos. Para proteger o homem do campo, e fazer com que ele permaneça no meio rural, não basta que o Estado lhe forneça meios econômicos mais seguros. Se o campesino acaso julgar que o lugar que lhe está reservado na sociedade encontra-se nas cidades, ele será um desajustado enquanto não realizar seu sonho de transferir-se para a cidade. Este fenômeno prende-se ao conceito sociológico de "status", que é a posição social de uma pessoa em relação a todas as outras com quem está em contato. Se "os outros" demonstram que certo indivíduo ocupa um "status" digno, ele fica satisfeito; mas se "os outros" demonstram o contrário, ele é, inconscientemente, levado a demonstrar habilidade, e, nesse afã, sempre deseja competir com os indivíduos que considera superiores, jamais com aqueles que considera inferiores. Assim sendo, se o campesino se considera inferior ao citadino, mais cedo ou mais tarde tentará procurar a cidade, para ali competir com quem lhe rouba a posição social.

Prestigiando as tradições gaúchas, e prestando assistência moral e social ao homem do campo, o Tradicionalismo estará convencendo o campesino da dignidade e importância do seu "status"। Estará, em suma, pondo em prática aquilo que o sanitarista Belizário Penna um dia salientou, mais ou menos nestes termos: "O Brasil é o país onde mais se fala em valorização. Valorização do café brasileiro, do dinheiro brasileiro, do algodão brasileiro, do boi brasileiro. Somente não se pensa na mais urgente e importante valorização: a do Homem brasileiro, a qual, por si só, estaria conduzindo a todas as outras".



reproduzido do site do
Movimento Tradicionalista Gaúcho

Último Prefácio

Luiz Carlos Barbosa Lessa
Último prefácio




(Último texto de Barbosa Lessa, escrito e publicado em livro)
Prefácio do livro, "KAIUÁ* o Dom da Palavra"
(*Em Guarani)

Revivendo o maior dom humano

Eu ainda era uma criança quando, nas aulas de 2º grau, os professores me ensinaram como viviam os gregos da Antigüidade e, assim, fiquei conhecendo uma quantidade de deuses que não acabava mais. Pelo que entendi, cabia mais a eles, do que a nós, a solução de nossos problemas pessoais.

Depois, cursando a Faculdade de Direito, as aulas de Direito Romano me puseram em contato com uma sociedade modelar onde havia uma quantidade de leis que não acabava mais. Pelo que entendi, cabia mais aos legisladores e aos juízes, do que a nós, a escolha do rumo certo para seguir na vida.

Preocupado em me fazer um "doutor" em assuntos gregos e romanos, pois a escola jamais apontou como modelo as minhas próprias raízes, foi em caráter particular, e meio por acaso, que vim a colher as informações básicas sobre meus avoengos guaranis. Que gente notável! Verdadeiros mestres na arte de organizar a vida sem o apelo a deuses complicados e a leis complicadíssimas.

Tudo muito simples, efetivamente. Como forças sobrenaturais, apenas quatro, suficientes para manter o equilíbrio do mundo: Iara (nas águas), Caapora (nas matas), Ceucy (nas lavouras) e Tupã (nos céus, zelando pela chuva necessária às outras três forças). E, como lei única, o Kaiuá.

Kaiuá, o Dom da Palavra. O maior dom humano, por ser o único que realmente nos diferencia dos outros animais. A capacidade de expressar com clareza o pensamento e o sentimento. A bússola para encontrar caminhos e o farol capaz de iluminá-los.

Foi uma pena que tal sociedade tenha pago o mais alto preço diante dos ambiciosos canhões de Portugal e Castela.

Os embaixadores ibéricos sequer quiseram ouvir os caciques autóctones, confundindo-os como uma espécie de imperador ou manda-chuva, quando, em verdade, eram simples porta-vozes excepcionalmente escolhidos para a transitória missão de falar diante de terceiros. O guarani não tinha chefes propriamente ditos. E seus próprios caciques não tiveram mais com quem falar. Sumiram do mapa.

Mas, eis que, agora, nos aparece este admirável casal que - mesmo sem o pretender - assume uma força de ressurreição do Kaiuá guarani: o cacique Schil e a "cacica" Cheila. Embora já nos seja muito difícil apagar de todo os mitos da Grécia, as leis de Roma e o labirinto do mundo moderno, que ao menos nos seja dada a oportunidade de tentar reencontrar a fortaleza perdida.

Certamente, nossa língua também permite que a gente possa falar corretamente, no momento exato, com a aconselhável postura, em alto e bom som, sem trair de modo algum o pensamento e o sentimento. Com firmeza e doçura.

Schil e Cheila estão nos chamando...

"Tchá-há!" (Vamos lá!)

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Caminho das Tropas

O CAMINHO DAS TROPAS

Sul refaz a trilha dos tropeiros
Cavaleiros desbravaram a região ao buscar rebanhos do Prata no século 18. Fundaram cidades em seu histórico percurso, reconstituído nesta reportagem de Zero Hora, do Pioneiro e do Diário Catarinense

CARLOS WAGNER
Zero Hora/Mostardas

    O pampa mal dispunha de um nome. A povoação de colonos no território gaúcho tinha começado poucas décadas antes, precisamente em 1684, a partir de uma comunidade fundada no litoral catarinense. A vastidão verde ao sul do Rio Mampituba recém se integrava ao Brasil. Em meio à adversidade, um personagem histórico despontou no início do século 18 e ajudou a converter essa terra hostil em Rio Grande do Sul: o tropeiro. Para carregar cavalos e mulas do Prata até São Paulo e Minas Gerais, ele desafiou o clima traiçoeiro e a precariedade da região. Cunhou uma trilha, o chamado Caminho das Tropas, deixando como rastro a fundação de cidades. Quase três séculos depois, iniciativas tímidas mas esperançosas tentam reconstituir o roteiro pioneiro e explorá-lo turisticamente.

    Em Lages (SC), o Sindicato Rural e a prefeitura ambicionam transformar em rota turística, histórica e ecológica o conjunto de estradas utilizadas por tropeiros. Projetos como esse valorizam uma fatia da História hoje guardada por escassos herdeiros, como Antônio Feliciano Barbosa, 75 anos, o Dodó, de Mostardas, no litoral sul gaúcho.

    Herdeiro: o tropeiro aposentado Antônio Barbosa, o Dodó

    O município de Dodó foi erguido em 1742 como Guarda de Mostardas. Nasceu para dar o apoio logístico aos cavaleiros. Devido à geografia da localidade, estendida sobre a areia, entre a lagoa e o mar, a população ficou até há pouco isolada. Isso ajudou a preservar o culto ao épico personagem.

    O ofício foi ensinado a Dodó nas primeiras décadas deste século। Primogênito do tropeiro e domador Vicente Barbosa, Dodó foi entregue ao fazendeiro Juca Terra para ser “um homem de serventia”. Ao dedicar-se às lidas campeiras, como os antigos tropeiros, vivia quase 24 horas por dia no lombo do cavalo e seguidamente dormia ao relento. Ainda resistiu até os anos 70 conduzindo tropas pelo interior de Mostardas e domando cavalos.



Origem da Palavra Gaúcho

A origem da palavra "Gaúcho"


Rodeio dos Ventos, Barbosa Lessa Barbosa Lessa
Rodeio dos Ventos
Editora Mercado Aberto, 2a edição


As pessoas normais costumam fazer uma só vez ao ano as comemorações de aniversário. Eu, por apaixonado ou exótico, pedi que ela deixasse eu comemorar mensalmente o aniversário dela; e ela permitiu. A cada dia 21, quando saio do escritório ao final do expediente, passo no açougue e pego uma boa costela e passo no súper e trago umas cervejas para a geladeira. A reunião se faz na churrasqueira do meu galpão simbólico, num canto do pátio. Se o tempo está ruim, pode ser que não apareça quase ninguém. Se a noite está linda, preparamos o espírito para receber maior número de amigos.

Ninguém é convidado formalmente; mas basta que alguém seja relacionado com nossa casa para estar informalmente avisado de que será bem-vindo nas noites de 21. Os mais curiosos perguntam qual a razão de ter-se escolhido esse dia e qual o motivo da reunião. Desconverso. E nem mesmo nossos dois filhos sabem que escolhi essa fórmula para renovar, ao menos rima vez por mes, meus agradecimentos a Deus por ter me dado uma companheira tão bacana, tão dedicada e fiel. As coisas de amor devem manter-se em segredo.

Alguns dos nossos amigos são mais assíduos às reuniões. Quase sempre vem o Heleno, carregando o violão e a bonita da Fátima. O Fraga, com seus poemas haicais. O Paolo Mellone, com suas inquietações de marketing e sua postura de visconde rio-grandino. E o Gregório, com a filha Zenaide.

A presença do negro Gregório talvez exija uma pequena explicação.

Ao tempo do meu bisavô, os crioulos Sousa eram nossos escravos. Ao tempo do meu avô, tornaram-se agregados da fazenda, plantando em regime de terça-parte. Ao tempo do meu pai, começaram a se desligar de nossa terra. Ao meu tempo, vários deles já moram em Porto Alegre.

Dos crioulos Sousa que hoje moram em Porto Alegre, só o mais velho se desencaminhou: é aquele que anda aparecendo nas crônicas policiais com o nome de "Crioulo Rengo". O mais moço joga nos juvenis do Internacional e está pintando para o próximo campeonato. Depois vem o meu afilhado, que é programador de computador na PROCERGS.

A Rosália, sempre bonita, casou com um motorista do Banco Sul-Brasileiro, está muito bem. E o Gregório se constitui numa surpresa, pois lá em nosso município nem se ouvia falar em batuque: é pai-de-santo. A filha dele, a Zenaide, é muito bem educadinha; está completando o 12 grau no Colégio Nossa Senhora da Glória.

Mais que o meu próprio afilhado, é o Gregório quem mantém maior relacionamento conosco. Herdou um certo atavismo de subserviência. Faz-nos agrados, traz presentes para meus filhos, sempre pergunta se estamos precisando de alguma coisa em que ele possa ser útil. Para retribuir, eu às vezes compareço às grandes festas no terreiro dele, quando há homenagem a Xangô ou Iemanjá, embora me desagradem tais superstições de baixo espiritismo.

Há cinco meses, em julho, na reunião do dia 21, estávamos molhando a garganta à espera de que o churrasco ficasse bem assado, e o Mellone me perguntou se eu estava fazendo mais alguma nova pesquisa em História ou Folclore - que são duas matérias que eu cultivo por hobby. Respondi que eu gostaria muito de poder apresentar ao Congresso Tradicionalista, em Santo Antônio da Patrulha, uma contribuição séria a respeito da origem da palavra "gaúcho". Pois afinal - argumentei - não se pode aceitar que milhões de pessoas cultivem o gauchismo e desconheçam a origem da palavra, seu sentido, seu valor semântico.

- E qual é a etimologia de "gaúcho"? - perguntou o Fraga, com os olhinhos cintilando, talvez em pré-inspiração para um novo poema.

- Pois aí é que está. decepcionei-o. - Ninguém sabe.

Para que a coisa não ficasse parecendo conversa de doido, entrei em detalhes. Nunca se encontrara uma etimologia plenamente convincente. No Rio Grande do Sul difundiu-se uma explicação lendária, sem nexo, que junta o guarani guahu, "uivo do cão", com o pronome guarani che, "meu", e dessa soma resulta algo completamente diferente: "gente que canta triste" (?). No Uruguai os estudiosos se dividem em duas correntes de opinião.

Uma, do falecido professor Buenaventura Caviglio, reporta-se ao instrumento garrocha, espécie de foice com que outrora cortavam o jarrete dos bois durante as caçadas de couro; garrucho seria o homem portador de garrocha; e como os guaranis não conheciam o som rr, passaram a dizer guahucho.

A outra corrente, liderada pelo professor Fernando Assunção, reporta-se à palavra francesa gauche (pronuncie-se "gôche"), que significa esquerdo e, por extensão, tudo o que não é direito; daí o galicismo espanhol gaucho, aplicado em Geometria e Arquitetura para significar aquilo que está fora de nível; e o primitivo gaúcho era considerado, dentro da superfície ou do plano social, como um defeito da raça espanhola.

- E na Argentina, como é que é? - perguntou a Fátima.

Respondi que, em 1925, um jornal de Buenos Aires promovera uma grande mesa-redonda para esclarecer em definitivo o tema, e os trinta intelectuais presentes só o que conseguiram foi uma confusão maior que antes, ao apresentarem uma ponchada de versões diferentes.

- Só o que se sabe mesmo - fui eu encerrando o assunto - é que o primeiro registro da palavra se deu em 1787, quando o matemático português Dr. José de Saldanha andou por aqui como integrante da comissão demarcadora de limites na banda oriental do Uruguai.

Numa nota de rodapé em seu relatório de trabalho, esclareceu, e eu até já decorei:

"GAUCHE, - palavra espanhola usada neste País Para designar os vagabundos ou ladrões do campo que matam os touros chimarrões, tiram-lhes o couro e vão vender ocultamente nas povoações".

- Mas então é uma palavra pejorativa... comentou o Fraga, decepcionado e já desinspirado.

- Talvez sim, talvez não. De qualquer maneira, pela explicação do demarcador Saldanha a gente ficou sabendo que não é palavra portuguesa. Não era conhecida nem pelos portugueses do Reino nem pelos colonos das ilhas dos Açores.

E como o churrasco já estivesse bem no ponto, antes de ir servindo-o eu pus o ponto final:

- O Congresso está se aproximando e acho que vou terminar não apresentando tese nenhuma. Mas a nossa cultura ficaria muito grata a quem pudesse esclarecer o intrincado enigma. Se algum de vocês puder me ajudar, nada de constrangimento: me ajude.

À saída, o Gregório perguntou-me com certa humildade:

- Não ficarias chateado se eu te ajudasse a descobrir a origem da palavra gaúcho?

Compreendi: ele estava querendo fazer uma das suas bruxarias, sabia da minha incredulidade e, zeloso como era, não queria me ofender com uma intromissão não-consentida. Dei uma risada:

- Vais me dizer que também tens folcloristas entre os teus orixãs?!

- Não posso afirmar nem sim nem não, pois até hoje não precisei procurar nenhum. Mas temos alguns encostos que foram pretos africanos, índios, caboclos, boiadeiros, ao tempo do desbravamento territorial do Rio Grande, e talvez possam me informar alguma coisa.

- Não faço objeção: estás autorizado a convocar quem bem entendas.

- Se, por acaso, eu obtiver alguma mensagem, peço para a Zenaide passar para o papel e vir te trazer.

- x -

Já faz uns dois meses que, certa manhã, no momento em que eu saía de casa para ir trabalhar, apareceu Zenaide e entregou-me uma folha, arrancada de seu caderno escolar.

ORIGEM DA PALAVRA GAÚCHO

Se os brasileiros fossem os primeiros a chegar ao planeta Marte, e lá encontrassem maricanos vivendo na roça, não inventariam uma palavra nova para identificá-los, pois já têm a palavra: roceiro, matuto ou caipira.

Quando os navegadores europeus, a caminho das índias Orientais, descobriram as Índias Ocidentais, para aqui transplantaram a palavra pela qual já identificavam os habitantes autóctones: índios.

Quando o Rei da Espanha mandou casais de agricultores das Ilhas Canárias povoarem a recém-fundada Montevidéu, eles transplantaram a palavra pela qual identificavam o habitante autóctone das ilhas.- guanche, ou guancho.

O Dr. José de Saldanha estava certo ao dizer que se tratava de uma palavra espanhola. Só que não era o espanhol do continente: era o espanhol das Canárias.

Temos certeza de que foi esta a origem da palavra gaúcho, com pequena distorção de pronúncia: guanche, ou guancho.

(Informações dos caboclos Maicá, Saltein e Perdiz, do preto velho Catarino e do colono Juan Bermúdez, concatenadas pelo folclorista Apolinário Porto Alegre e psicografadas por Pai Gregório de Xangô durante o batuque da noite de hoje, 5 de outubro de 1977.)

Intrigado, fui ao Consulado da Espanha perguntar se havia algum canário residente em Porto Alegre. Indicaram-me o Sr. José Juan Morales Gutierrez, diretor de restaurantes da cadeia hoteleira Plaza. Convidei-o para tomar um uísque, ele foi muito simpático, eu não lhe disse realmente que estava tratando de assunto provocado por um pai-de-santo, mas conduzi o papo até que ele me pronunciasse o nome dos habitantes rurais das Canárias. A pronúncia é dificil de reproduzir em português.

Mais parece ganche, ou gantcho; mas também parece ser guantcho, gãotche, gaucho,guahuchi.

Disse-me o Sr. José juan Morales Gutierrez que, se eu quisesse saber mais coisas sobre as Canárias, escrevesse ao Prof. Néstor Alamo, uma sumidade.

Somente hoje pela manhã chegou a resposta à minha carta:

"Las Palmas de Gran Canária, 1O-XII-77.

"Distinguido señor: Espero me perdone usted; he estado de viaje primero y luego he tenido una serie fatigosa de trabajos que me ha impedido el atender a mis compromisos.

"Contesto a la suya de 7 de octubre anterior. Debo decirle que la palabra ganche no existe. Creo que ella debe corresponder a guanche, que sí tiene existência. Esta voz sirve a los habitantes prehispánicos de estas islas. Esta raza tuvo existencia hasta la mitad primera del siglo XVI aunque ya mesclada con los europeos que vinieron a civilizarnos. Hoy, la raza, como tal, está extinguida o casi, aunque en el sur de Tenerife aun se pueden observar débiles vestígios de ella. Acaso en las montañas de las otras islas también.

"Con mis deseos de que tenga una feliz Navidad y el mejor año 78, le saluda

(assinado) Néstor Alamo".

- x -

Ainda há tempo para ultimar e apresentar a tese, agora mês que vem, em Santo Antônio da Patrulha.

Mas tenho certeza de que o plenário vai cair na gargalhada quando me perguntar qual a fonte em que me baseei e eu invocar por testemunhas nada menos que cinco mortos: três caboclos, um negro e um colono canário que por aqui andaram há dois séculos ou mais.

Não, não vou apresentar tese nenhuma.

É claro que a cultura tradicionalista vai sair perdendo. Mas, ficando calado, salvo o meu pêlo e não vou passar por maluco.

Devo manter em segredo, para sempre, esta minha descoberta sobre a verdadeira origem da palavra gaúcho.


Revolução Farroupilha

Revolução Farroupilha

História do Rio Grande do Sul
Telmo Remião Moure
Editora FTD S.A.

Um dos temas mais comuns nos livros de História do Brasil é a Guerra dos Farrapos. Observado a partir da perspectiva central agro-exportadora brasileira, o movimento farroupilha riograndense perde qualidade, veracidade e atinge o prosaico.

Mesmo na historiografia e na literatura produzidas no Rio Grande do Sul há distorções que confundem os fatos. Alguns fazem apologia dos heróis e condenam os traidores. Outros tentam desmistificar, mas pouco acrescentam ao conhecimento do contexto, às motivações e conseqüências do movimento dos farrapos. Colocam-se como discussões o caráter separatista ou não do movimento, gerando posições apaixonadas ou constrangedoras para a problemática da identidade regional e nacional.

Estudos históricos e produções literárias mais recentes têm sido mais objetivos. O movimento farroupilha rio-grandense fez parte de exigências locais e esteve inserido no jogo das questões nacionais e internacionais típicas da primeira metade do século XIX.

Com base nessa historiografia mais recente, pretende-se compreender as relações do movimento farroupilha no contexto brasileiro, platino e do mundo ocidental. Além disso, responder a indagações como: quem fez e por que fez a guerra? Quais os interesses em jogo na eclosão e duração do movimento? De que forma foi realizada a paz e por que ela apresenta um certo espírito de "comemoração" entre os legalistas e insurretos? Finalmente, criticar as reivindicações dos farrapos a partir da constatação dos limites da pecuária rio-grandense.

A época e suas relações com a revolta farroupilha

Naquela época, o liberalismo econômico estava derrubando estruturas antigas, calcadas nos monopólios e regimes políticos autoritários e absolutistas. O constitucionalismo surgia como fundamental à história da humanidade. No entanto, os processos de emancipação política e de formação do Estado Nacional brasileiro foram centralizadores e autoritários. Os regionalismos não foram respeitados. Não ocorreram autonomias tanto para interferirem na indicação dos administradores provinciais como na capacidade de legislar em assembléias regionais.

As elites regionais se ressentiram com a dissolução da Assembléia Constituinte de 1823, a outorga da Carta de 1824, as políticas tarifárias não protecionistas, a censura e as perseguições políticas aos inimigos da corte do Rio de Janeiro. Algumas dessas elites recorreram à insurreição armada, sempre reprimidas e vencidas pelo centralismo monárquico. Foram as classes dominantes do Pará e do Amazonas que iniciaram a Cabanagem. O mesmo ocorreu na deflagração da Balaiada, no Maranhão. Nessa e em outras revoltas os setores dominantes foram surpreendidos pela participação crescente dos segmentos dominados. A emergência dessas camadas preocupava as elites porque elas extrapolavam os objetivos iniciais dos movimentos, voltando-se contra a estrutura de dominação social. Outras revoltas, como a dos farrapos, não permitiram que setores mais populares, e dominados socialmente, extrapolassem os objetivos estabelecidos pelas elites locais.

A Guerra dos Farrapos foi um movimento da classe dominante rio-grandense, em oposição ao centralismo exercido pela corte do Rio de Janeiro, e só.

Participação de grupos sociais

A maior parte dos criadores e charqueadores engajaram-se como militantes ou financiando a insurreição. Os comerciantes, em sua maioria, assumiram posição defensiva ao lado do governo monárquico, chamados de legalistas. Intrigas entre os chefes políticos pecuaristas produziram deserções ou posicionamentos opostos ao longo do movimento.

Os habitantes de Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande, na época as principais cidades do Rio Grande do Sul, nunca aderiram, em sua totalidade, ao movimento. Cabe destacar que Porto Alegre, a principal base de sustentação dos legalistas, ganhou o título de "mui leal e valorosa" do monarca brasileiro. A República Rio-Grandense criada no dia 11 de setembro de 1836, teve como sedes administrativas as cidades de Piratini, Caçapava e Alegrete, expressando nas mudanças a fragilidade estratégico-militar do movimento.

A revolta teve mais apoio no meio rural (junto a pecuária extensiva). O movimento não foi acolhido pelos imigrantes germânicos que já iniciavam a ocupação da encosta do planalto meridional (São Leopoldo, Montenegro, Caí e arredores). Nas cidades, os comerciantes e os segmentos sociais, em geral, dividiram-se, mas pouco fizeram a favor ou contra. O movimento farroupilha rio-grandense nunca dominou um porto, por tempo razoável, para escoar produtos e, assim, garantir a sobrevivência imediata dos insurretos. Realizaram a tomada de Laguna, buscando alcançar um porto mais permanente, mas foram derrotados e expulsos, em pouco mais de três meses.

A questão dos "heróis"

A Guerra dos Farrapos tem garantido à historiografia oficial e à ideologia dominante extensa "galeria de heróis", muitas vezes equiparados aos semideuses, e a guerra equiparada a uma "epopéia". Outras vezes, os personagens são denunciados como "oportunistas", "contrabandistas", etc. Certamente os episódios históricos de 1835 a 1845 podem ensejar referenciais importantes à problemática de símbolos e identidades sociais e nacionais. Mas é necessário compreender que o movimento dos farroupilhas passou por análises teóricas relacionadas ao republicanismo, constitucionalismo e cidadania. Vários foram os pensadores que se ativeram aos temas, deixando registros dessas discussões. Mais do que isso, os "heróis" não podem ofuscar o que os farrapos não visualizavam: uma sociedade entravada, com uma pecuária debilitada, sem perspectivas de avanços no mercado altamente competitivo que se desenvolvia a partir do século XIX. Além disso, o movimento farroupilha lutou pelos interesses da classe dominante pecuarista rio-grandense, descaracterizando-se, portanto, uma visão mais abrangente, com justiça distributiva.

Bento Gonçalves da Silva, Bento Manuel Ribeiro, Davi Canabarro, Antônio de Souza Neto e muitos outros eram pecuaristas ou estavam envolvidos com a pecuária. Todos lutaram nas guerras empreendidas por lusos-brasileiros na bacia Platina, desde a conquista militar dos Sete Povos das Missões, passando pela Guerra Cisplatina. Depois de 1845, muitos continuaram lutando com os vizinhos platinos. Merece destaque a figura de um mercenário, Guiseppe Garibaldi, que também lutou ao lado de Rivera, no Uruguai, e participou das guerras pela unificação da Itália. Outros mercenários participaram da Guerra dos Farrapos ou estiveram engajados nas tropas inimigas (legalistas).

Insurreição ou Revolução?

A insurreição que os farrapos preferiam chamar de revolução durou dez anos. Fazer revolução significava avançar na História, mesmo para os segmentos dominantes doinício do século XIX. Aliás, a revolução implicava o uso da força, legitimando o movimento. Os exemplos das elites dominantes da América do Norte, França e Inglaterra estimulavam processos revolucionários com objetivos de destruir o arcaico, o antigo, o ultrapassado. Só que os farroupilhas não questionaram a escravidão em seu sistema produtivo nem ao menos tiveram condições de ensaiar planos de liberdade e crescimento econômico. Identificaram-se mais com o conflito centro versus periferia. Por isso, é incorreto chamar o movimento de revolução. Foi uma guerra civil entre segmentos sociais dominantes.

Além disso, a escravidão era a "doença" que o paciente não aceitava ter. Preferia dirigir suas críticas à falta de protecionismo alfandegário. Esquecia-se ou não queria entender que a estrutura produtiva da charqueada rio-grandense retraía a capacidade de competir com os similares platinos. Este sim era o principal problema da pecuária rio-grandense, que só teve espaço no mercado enquanto os concorrentes platinos estavam envolvidos em guerras contra o domínio espanhol ou na disputa pelo controle do Estado Nacional. Foi sintomático: de 1831 em diante, os platinos entraram em período de relativa paz, voltaram a criar gado e produzir charque sem os inconvenientes das guerras. Com isso, o charque rio-grandense entrou em colapso. Em 1835 eclodia o movimento farroupilha.

Resultados do Movimento

Por dez anos, a guerra civil prejudicou o setor pecuarista.

As perdas foram muito maiores do que os lucros políticos e econômicos do movimento. Os pecuaristas saíram mais endividados junto aos comerciantes e banqueiros. Propriedades rurais, gado e escravos foram perdidos e tornou-se muito difícil repô-los posteriormente.

A paz honrosa de Poncho Verde, em 1845, acomodou as crescentes dificuldades dos farrapos, pois não interessava ao governo monárquico reprimir uma elite econômica. Aos oficiais do Exército farroupilha foram oferecidas possibilidades de se incorporarem aos quadros do Exército nacional. Líderes presos foram libertados e a anistia foi geral e imediata.

Antes e depois da Guerra dos Farrapos, os rio-grandenses lutaram contra os platinos, defendendo militarmente os interesses da coroa portuguesa e, a partir de 7 de setembro de 1822, os da corte brasileira. Ou seja, interessava ao governo do Rio de Janeiro assinar o acordo de Poncho Verde porque a política externa brasileira ainda necessitaria dos serviços militares (sempre disponíveis) da Guarda Nacional formada por estancieiros e peões rio-grandenses.

Quanto à política tarifária, medidas sem expressividade e pouco duradouras tentaram transparecer um melhor tratamento dado ao produto nacional. A estrutura produtiva ultrapassada (baseada na escravidão) não foi alvo de preocupações.

A sensação que existe hoje, passado um século e meio, é a de que as motivações daquele movimento não foram superadas. Por um lado, o Rio Grande do Sul continua em situação de mando político dependente, com uma economia pouco beneficiada no processo de acumulação capitalista que se reproduz no Brasil. Por outro, o Rio Grande do Sul não consegue "enxergar o próprio umbigo" e compreender que suas dificuldades resultam da forma como tem sido realiada sua inserção como sócio menor no sistema capitalista brasileiro. Expressando-se de forma figurativa, o Rio Grande do Sul continua produzindo e vendendo charque, subsidiando (perifericamente) o funcionamento do mercado exportador brasileiro e sem cacife no processo político-decisório nacional.

Manifestos de Bento Gonçalves

"Compatriotas! O amor à ordem e à liberdade, a que me consagrei desde minha infância, arrancaram-me do gozo do prazer da vida privada para correr covosco à salvação de nossa querida pátria. Via a arbitrariedade entronizada e não pude ser mais tempo surdo a vossos justos clamores; pedistes a cooperação de meu braço e dos braços que me acompanham, e voei à capital a fim de ajudar-vos a sacudir o jugo que com a mão de um inepto administrador vos tinha imposto uma facção retrógrada e antinacional."

"A inaptidão que desde logo mostrou para tão elevado cargo e a versatilidade de caráter do Sr. Braga favoreceram os desígnios dos perversos, que nele acharam o instrumento de seu rancor contra os livres; e no poder anexo a presidência o meio de saciar suas ignóbeis vinganças."

"O Governo de sua Majestade Imperial, o Imperador do Brasil, tem consentido que se avilte o Pavilhão Brasileiro, por uma covardia repreensível, pela má escola dos seus diplomatas e pela política falsária e indecorosa de que usa para com as nações estrangeiras. Tem feito tratados com potências estrangeiras, contrários aos interesses e dignidade da Nação. Faz pesar sobre o povo gravosos impostos e não zela os dinheiros públicoos... Faz leis sem utilidades públicas e deixa de fazer outras de vital interesse para o povo... Não administra as províncias imparcialmente... Tem conservado cidadão longo tempo presos, sem processo de que constem seus crimes."

Proclamação

Sala das sessões da Asembléia Constituinte e Legislativa
(Alegrete, 1843)

RIO-GRANDENSES!

Está satisfeito o voto nacional. Chegou finalmente a época em que vossos Representantes reunidos em Assembléia Geral vão formar a Constituição Política, ou a Lei fundamental do Estado. Desde o primeiro período de nossa Revolução, desde o primeiro grito de nossa Independência, é este sem dúvida um dos sucessos mais memoráveis, que deve ocupar um dia as páginas da história. Dentro em pouco tempo o edifício social será levantado sobre bases certas e inalteráveis.

...
Concidadãos! Os destinos da Pátria dependem principalmente de vossa constância e valor. Nesta luta de liberdade contra a tirania vós tendes dado um exemplo heróico do mais nobre, desinteressado patriotismo, e vossos dolorosos sacrifícios assaz provam, quanto pode uma Nação generosa, e magnâmica, que jurou não ser escrava.